quarta-feira, 25 de março de 2009

O horror, piás, o horror! (1)

Estava no ralo de meus ensaios noturnos para as apresentações escolares do grupo de teatro 1, que tinha uma peça infantil. Dali iria para uma aula de balé contemporâneo que me daria mais e mais flexibilidade, que por sua vez me daria mais expressão e compreensão corporal para as performances do grupo 2 em eventos que faríamos na semana posterior. Não podia nem pensar em arrumar mais nada porque no dia seguinte teria que me apresentar ao grupo 3, onde fazia papel de escalão quase principal caindo para o ostracismo em um espetáculo adulto que iria no outro fim de semana embarcar em viagem extrema e ignorada para os rincões do interiorzão para mais um dos infindáveis festivais cheios de amadores e poucas – ou nenhuma, na maioria das vezes – amantes verdadeiras.

Mas não ouvindo o clamor das juntas e dos neurônios ressabiados, deixei-me levar pelo papo mole do Beto Chapéu, que de longe era ouvido a tagarelar e argumentar sem sucesso com uma dúzia de companheiros. De primeira, achei por bem recusar o convite feito à queima-roupa, mas minha aparente decisão se pôs por terra ao ouvir o doce rasgar do ar saindo de seus pulmões a vibrar as cordas certas nos timbres e compasso exatos para proferirem o seguinte ruído, prontamente decodificado pelo meu aparato cerebral:

- Vai, meu, faz isso pra mim, cara. Rola uma grana.

Acontece que ele tinha um grupo, ou corja, ou malta, da mais barata, rasteira e infeliz das artes interpretativas: animação de festinhas. Infantis, bem entendido, tanto pior, pois sinônimo de realmente nenhuma diversão. E como empresário ainda não versado na arte dos cursinhos de empreendedorismo públicos, ia, como todos vamos, tocando como dava o barquinho de sua iniciativa privada. Marcava festinhas a torto e a direito, e, por vezes, ficava sem um cristão para dar conta do recado. Mesmo porque a maior parte dos que já haviam se arriscado já estavam espertamente incomunicáveis por fone, fax ou até mesmo através da vibração dos próprios tímpanos. E, bem da verdade, eram necessários pelo menos dois cidadãos de bem para garantir uma animação a contento. Desafio duplo para ele, que em momento algum desanimava. Isso tinha que ser dito. Nunca vi o gajo um dia sequer pelos cantos, estava sempre a falar, retrucar, a rir e se espalhar pelos ambientes.

Beto então saía à caça de incautos para preencher sua sanha de ganhar algum hoje a fim de se bancar mais um dia amanhã. Nada mais nobre. E naquela noite, caí no laço. Muito mal armado, diga-se, mas o peixe que sonha estar no mar aberto mal sabe que está num barril à espera de uma arpoada fácil, fácil. Aceitei a empreitada.

- Legal, legal. Vai ser no sábado, às cinco da tarde. Você vai com a Sarita. Beleza? Amanhã trago o figurino.

Figurino! Ele tinha coragem de chamar aqueles panos mal ajambrados de figurino. Velhos, desbotados, uma penúria de dar dó. E vieram junto com o kit de maquiagem, tintas ressecadas em potinhos encaradidos que mais pareciam aqueles guaches que a gente esquecia num canto na infância, que viravam pedrinhas inúteis e iam impreterivelmente pro lixo. Depois de muito analisar a roupa, descobri que se tratava de uma fantasia de palhaço. Ajudou uma peruca feita de meia bege com fios de lã colorida penduradas em volta, pra modo de dar a ideia da careca que os palhaços costumam ter. Mas quase que não adivinho, foi mais sorte. De principiante.

Já tinha feito vários espetáculos. Até streap-tease com uma linda calcinha vermelha já tinha encarado em nome da arte dionisíaca. Mas confesso que naquele dia, o grande dia, me sentia diferente. O coração disparava. Uma emoção nova. Quem dera fosse um ataque cardíaco. Não era. Azar. Sarita era uma colega das aulas, conhecia pouco, falávamos menos ainda. Mas menos mal, era alguém minimamente conhecido. Ela me ligou e marcamos na casa de uma outra colega, onde ela teria que pegar sua roupa. Dali, iríamos de busão para o aniversário do peti. Chego lá e fico a esperar na porta. Meia hora, uma hora e nada. Ela chega então esbaforida de táxi.

- Entra, a roupa não tava aqui, tive que ir em outro lugar buscar e a gente já tá atrasado. Vamos.

E fomos, loucamente, para não traumatizar a criança que aguardava ansiosa sua surpresa, que esfalfava os pais que, além dos comes e bebes requeridos pela assistência, ainda garantiam um mimo a mais, praticamente um luxo, trazendo artistas de uma companhia para alegrar o ambiente e fazer saudáveis jogos pedagogicamente pensados para o desenvolvimento criativo e psicomotor dos pequenos e nem tão pequenos.

Lá chegamos, apresentações de praxe. Oba, somos os animadores. Ah! Binhô! Binhô! Chegaram os artistas. Entrem, entrem. Artistas! A mulher nos tinha em alta conta, quem diria. Me colocaram em um banheiro no andar superior, para me trocar. Sarita em um quarto. Penei para entender a roupa. Calça curta folgadona, suspensório, camisa larga querendo ser colorida, mas perdendo a batalha pro tempo inanimado. Peruca que queria imitar a carequinha dos palhaços, mas que passava longe na tentativa de ilusão, os fios de lã pendendo tristes daquele arremedo de pano. E a maquiagem, feita por mãos pra lá de inexperientes, coisa mais pra fim que pra início de espetáculo. Ou de festa.

Me encontrei com a Sarita no meio do corredor. Perto do palhaço mendigo que eu estava parecendo, até que ela tava um tanto quanto ajeitada. Vestida de moranguinho (!), a roupa estava bem menos acabada que a minha, e sua maquiagem perfeitamente pintada. E, pra melhorar, ela era bem atraente, o que ajudava de monte. Me senti na boa, pelo menos alguém ali sabia o que estava fazendo.

Descemos pra encarar. A casa era apertada e estava entupida de gente. Muita breja, salgadinhos e sanduíches por todo lado, ninguém se entendendo, todo mundo falando ao mesmo tempo, um zum zum zum geral e… nenhuma criança. Olhei ao redor, tentando entender. Procurei e não encontrei sinais que indicavam presença infantil. Estranho. A dona da casa atravessou o mar de gente gritando e gesticulando muito, nos agarrou e nos arrastou através das duas salas, cozinha e área de serviço, onde paramos frente a uma porta fechada. Tudo muito estranho. Ela nos falou alguma coisa, mas naquele frenesi de informação nova, eu estava mais pra lá que pra cá e sublimei completamente. Ela abriu a porta e praticamente nos empurrou pra fora, fechando-a atrás de nós. Nos vimos no topo de um pequeno lance de escada, acuados. Olhando para baixo, vimos umas trinta crianças fazendo uma zona dos infernos. Corriam pra todo lado, umas se batiam, outras choravam, comiam, cospiam refrigerante e… nenhum adulto por perto. Aquilo me perturbou.

Segue…


4 comentários:

  1. Nossa!
    É praticamente a descrição da minha vida!

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  2. Tudo fica melhor quando vira história, diz aí!

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  3. Ei, anônimo, quem és tu?, mas obrigado pelo comment mesmo assim.

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